quarta-feira, 2 de abril de 2008

Blues em espírito



O escritor Paul Oliver, especialista na pesquisa do blues, descreve muito bem a função do blues na vida das pessoas. Confira!

“...o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico. O blues é a emoção pessoal do indivíduo que encontra na música um veículo para se expressar. Mas é também uma música social: o blues pode ser diversão, pode ser música para dançar e para beber, a música de uma classe dentro de um grupo segregado. O blues pode ser a criação de artistas dentro de uma pequena comunidade étnica, seja no mais profundo Sul rural, seja nos guetos congestionados das cidades industriais. O blues é a canção casual do guitarrista na varanda do quintal, a música do pianista no bar, o sucesso do rhythm and blues tocado na jukebox. É o duelo obsceno de violeiros na feira ambulante, o show no palco de um inferninho nos arredores da cidade, o espetáculo de uma trupe itinerante, o último número de uma estrela dos discos. O blues é todas estas coisas e todas estas pessoas, a criação de artistas famosos com muitas gravações e a interpretação de um homem conhecido apenas por sua comunidade, talvez conhecido apenas por si mesmo.”

quinta-feira, 13 de março de 2008

Mergulho nas águas do blues


Corria o ano de 2002. Era uma noite quente, em Vitória, e Rodrigo saiu para curtir um show num pub da Praia do Canto. Lá, o som sujo das guitarras, através dos amplificadores valvulados, e os magnéticos solos de gaita despertaram nele uma intensa paixão: o blues. Não era somente um show, mas um ritual invocando os espíritos dos velhos bluesmen. A música entranhou-se por seus poros, tomou conta de seu corpo. Sua vida mudaria radicalmente a partir dali.

Jornalista recém-formado pela Faesa, Rodrigo Rezende, 23 anos, fez de sua grande paixão objeto de estudo. Seu trabalho de conclusão de curso, apresentado em dezembro do ano passado, é um livro-reportagem no qual ele conta como o ritmo nascido às margens do Rio Mississippi, entoado pelos negros escravos, nos Estados Unidos, começou a ser feito por músicos no Espírito Santo, desde o final dos anos 80, com a banda Urublues.

Em "Espírito Blues", no primeiro capítulo, o jornalista remonta às origens do gênero musical. A começar pelos tempos da escravidão nos Estados Unidos, passando por suas transformações, até explodir no mundo inteiro. No Brasil, o blues começa a ganhar força nos anos 70 para, uma década depois, dar as caras em território capixaba.

"A idéia inicial do trabalho era fazer um videodocumentário, só que não consegui vender a idéia pra ninguém. Fiquei impossibilitado de fazer tudo sozinho e, de última hora, resolvi fazer o livro, aconselhado pelo meu orientador", conta Rodrigo – que, além de jornalista, é vocalista das bandas Sunrise Blues Band e Hillbilly the Kid.

Sunrise
No segundo capítulo, Rodrigo (mais conhecido como Vovô) narra em primeira pessoa a sua própria trajetória dentro do blues, ao lado dos amigos que o ajudaram a fundar a Sunrise Blues Band. História que começa lá em 2002, após o show a Big Bat Blues Band, no Oil Pub, na Praia do Canto.

"Eu já conhecia o blues, mas aquele foi o meu primeiro contato ao vivo. Ao vivo é diferente! Blues é transpiração, é contato. Quando consegui enxergar o blues ao vivo, ali perto de mim, desencadeou tudo. Foi o dia em que falei: ‘caramba, vou montar uma banda de blues!’", recorda-se.

Para os capítulos seguintes, o jornalista optou pelo formato de entrevista ping-pong, antecedido por um pequeno texto introdutório. De acordo com Rodrigo, a escolha foi resultado de muita conversa com seu orientador. Ele revela que o formato o ajudou, por ser mais prático, uma vez que o tempo que tinha para concluir o trabalho era muito curto (um semestre).

"Além disso, é um formato que gosto de ler. Acho que é mais direto, e você sente a presença do entrevistado. Por conta disso, achei que as pessoas que lessem iriam se interessar também."

Apesar do prazo, realizar esse trabalho foi muito fácil, segundo Rodrigo, pois ele já conhecia as pessoas que fizeram a história do blues no Estado muito antes de pensar em escrever o livro-reportagem. "Eu já tinha uma intimidade com todos os entrevistados, que foram superacessíveis. A produção do livro foi natural, um bate-papo além da conta."

Teoria
A base teórica para a produção de "Espírito Blues" foi os livros "Páginas Ampliadas" e "O que É Livro Reportagem?", ambos de Edvaldo Pereira Lima, e "Livro-Reportagem", de Eduardo Belo. Rodrigo explica que a leitura das obras de Pereira Lima ajudaram-no a perder o medo de falar sobre si mesmo, no livro, e narrar sua participação na história.

"Ele fala que, para escrever um livro-reportagem, o jornalista deve participar. É o que ele chama de observação participativa. E isso eu já fazia, antes mesmo de ter a idéia de escrever o livro. A partir daí, fiquei mais solto para escrever. Sem me culpar, por achar que ia me promover. Foi uma vantagem, pois não precisei me inserir num contexto para falar dele. Já fazia parte", conta Rodrigo, que pretende ampliar sua pesquisa e, futuramente, publicá-la em livro.

Publicado em A Gazeta, Caderno Dois, Coluna Campus, em 11 de março de 2008, texto de Tiago Zanoli.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Hillbilly The Kid e Big Bat Blues, no Teacher's Pub

O country e o blues estão juntos pela primeira vez em Vitória. O Hillbilly The Kid e a Big Bat Blues Band se apresentam nesta sexta, 14 de março, no Teacher’s Pub, Praia do Canto, às 22 horas. As duas bandas trazem o que há de melhor nos dois estilos e a promessa é de uma boa noite para quem gosta de música ao vivo.

A Big Bat vem com um show recheado de clássicos do blues e o Hillbilly The Kid apresenta, novamente, o Tributo a Johnny Cash. Então, quem quiser bater o pé no chão e cantar “Yippie yi Oh, Yippie yi yay” pode vir e se divertir com mais uma homenagem ao grande “Man in Black”!

Vá lá!

HILLBILLY THE KID E BIG BAT BLUES BAND. Country e Blues. Sexta, 14 de março, 22 horas, no Teacher’s Pub, Rua Rômulo Samorini, 33, Praia do Canto (ao lado do Triângulo das Bermudas e próximo à Ponte Ayrton Senna), Vitória. Entrada, R$ 10,00.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Introdução de Espírito Blues


O blues é trilha sonora para o grande êxodo negro do sul para o norte dos Estado Unidos. E esse estilo chegou ao Espírito Santo introduzido, principalmente, pela banda Urublues, em 1988. O livro-reportagem 'Espírito Blues' pretende documentar a história dos músicos capixabas que constituíram sua formação musical a partir desse estilo centenário, negro e etílico.

Bandas como a Sunrise Blues Band, o Buster Blues, a Black Jack, além dos precursores Urublues, Big Bat Blues Band e Fábio Mattos Blues Band estarão representados nos capítulos do livro, que em sua primeira edição ainda traz o retrato de dois grandes personagens do blues capixaba, o gaitista Cezar Távora e o guitarrista Douglas Chaga.

Em Espírito Blues, além do registro da ação e produção desses músicos ao longo do tempo, tomo como conhecimento de caso a banda Sunrise Blues Band, da qual faço parte, desde o ano de 2002. No capítulo destinado a ela, narro minha experiência inserido no contexto do blues feito no Espírito Santo.

O que não tem lugar nas páginas de jornal, normalmente, é excluído pelo editor. Mas, as páginas de um livro podem e devem ser o lugar comum para a produção jornalística. Assim o profissional mostra que no jornalismo as informações não se perdem, necessariamente, de um dia para o outro. O 'Espírito Blues' faz o resgate dos fatos que marcaram a formação da cena blues capixaba em um livro-reportagem que respeita a importância dos homens do blues espírito-santense.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Hillbilly The Kid faz tributo a Johnny Cash


O Hillbilly The Kid (HBTK) inicia o projeto “Tributo a Johnny Cash” e se apresenta no Café Touché, Praia da Costa, Vila Velha no sábado, 08 de março, às 22 horas. O show, que celebra os 76 anos do conhecido “Man in Black”, vem cheio de clássicos como Folsom Prison Blues, I Walk the Line, Ghost riders in the sky e muitos outros. O couvert artístico custa R$ 8,00 (oito reais) e a reserva de mesas é feita pelo telefone 27 32290181.

Há dois anos de atividades, com shows nas melhores casas da Grande Vitória e da Grande Belo Horizonte, o HBTK diferencia-se por ser a primeira e a única banda de country-bluegrass do Espírito Santo.
A idéia do grupo é viver os momentos nostálgicos da década de 50, homenagear os grandes mestres do estilo “Hillbilly”, como Johnny Cash, e colocar a platéia para “bater o pé no chão”.

O homenageado da noite, J. R. Cash, mais conhecido como Johnny Cash, nasceu em Kingsland, no dia 26 de fevereiro de 1932 e morreu em Nashville, em 12 de setembro de 2003. Cash foi um cantor e compositor americano de música country, conhecido por seus fãs como "O Homem de Preto". Em uma carreira que durou quase cinco décadas, ele foi para muitas pessoas a personificação do country. Sua voz sepulcral e o distintivo som "boom chicka boom" de sua banda de apoio "Tennessee Two" podem ser reconhecidos instantaneamente em seus primeiros acordes.

Show: Tributo a Johnny Cash
Banda: Hillbilly The Kid

Local: Café Touché.
Av. Gil Veloso, 1856. Praia da Costa, Vila Velha.
(Térreo do Hotel Mercury)
Data: Sábado, 08 de março
Horário: 22 horas
Reserva e contato: 27 32290181

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Blues Brasil S.A.




No Brasil, existe uma discussão sobre o porquê da diferença entre a música rural brasileira e a feita no Sul dos Estado Unidos. Essa questão é solucionada quando se analisa a regionalidade do tráfico negreiro. Os fazendeiros brasileiros preferiam escravos de Senegal, os espanhóis escolheram os iorubás, os ingleses gostavam dos ashantis e os franceses optaram pelos negros de Daomé. Uns tinham como principal manifestação musical a voz outros os tambores, vide o batuque do samba nas terras brasileiras.

Já o folclorista brasileiro Mario de Andrade afirma existir proximidade entre as músicas rurais do Brasil e as do Sul norte-americano.

“Nos congado, moçambiques e sambas de negros rurais ou já de caipiras de São Paulo, as frases de recitativo entre as danças são propositalmente dadas com tais glissandos e portamentos, com tão prodigiosa indecisão melódica, que não é possível grafar estes recitativos. Na realidade, a impressão que se tem é que existe um tema, exclusivamente virtual, que é impossível por determinar com exatidão, sobre o qual os cantadores variam sempre em quartos de tom, desafinações voluntárias, nasalações sonoramente indiscerníveis, arrastados e portamentos de voz. Tudo isso pela sua própria pobreza deixa cantador e ouvinte numa indecisão pasmosa, completamente desnorteado e tonto: porque esse é realmente o processo de tornar mais forte, mais eficaz, o poder hipnótico da música”.

Neste caso, parece que Mario de Andrade se refere ao tão vangloriado feeling blues, ou o sentimento. Mas, de fato, o blues é um gênero exclusivamente afro-americano e não se desenvolveu em outros países de cultura européia que tenham recebido populações negras. Mesmo assim, partindo do princípio de que para se fazer blues basta senti-lo, é irremediável que artistas de outras nacionalidades tomem referencias desse estilo musical em sua produção, sem preconceitos ou preciosismo.

O bluesmen brasileiro Celso Blues Boy certa vez disse que “somos brasileiros e devemos cantar na nossa língua”. O guitarrista carioca, que já gravou com o mestre B. B. King, depois dos festivais de jazz e blues que aconteceram no Brasil em 1978 e 1980, lançou em 1984 o seu primeiro hit Aumenta que isso aí é rock'n'roll e, com a febre gerada pela Rádio Fluminense, o blues se intensificou no país do samba e do futebol. Nomes como André Cristóvam e Blues Etílicos logo ganharam força e, até hoje, o blues feito em terras brasileiras tem revelado muitos intérpretes, além de conseguir respeito da crítica.


No Espírito Santo, este início não é diferente. Em Vitória, no ano de 1986 surge no campus da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) a Urublues, a primeira banda a levar blues no nome. Nos anos 90, aparecem a Big Bat Blues Band e a Fábio Mattos Blues Band. Outros músicos, como Paulo Branco, Afonso Abreu e Saulo Simonassi engrossam o coro do blues no Estado e passeiam pelo estilo, sem compromissos. Nos anos 2000, depois de um apagão na cena blues no Espírito Santo, o estilo é reforçado com a presença de novas bandas como a Sunrise Blues Band, o Buster Blues, o DC3, o Voodoo Trio, o Red Blues e a Black Jack.

*Trecho de "Espírito Blues", livro de Rodrigo Rezende.